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Rua do Amendoim

De julho de 2004 a junho de 2006. Nos vemos na Curva do Vento: www.curvadovento.cjb.net

Otávio

6/24/2007

Curva do Vento

Não importa o que digam: eu agüentei.


Por poucos meses, mas agüentei.


E então é isso. Uma vida sem sentido ou voltar a espancar o teclado até sair sangue.


Não o meu sangue. Fácil demais.


Vou espancar o teclado até sair o SEU sangue, ou, pelo menos - e provavelmente - morrer tentando.


Desta vez, no entanto, não conseguirei atualizar diariamente.


Enfim. É pegar ou largar.


Vejo vocês na Curva do Vento:

www.curvadovento.cjb.net


2007
6/18/2006

E bênção

Quando mais novo, em raras vezes cheguei a esquecer minha idade.

 

Neste ano ocorreu a primeira vez em que esqueci o dia do meu aniversário.

 

Passam-se os dias, passam-se os anos. Cada vez mais – mesmo que errados – começamos a estabelecer novas e diferentes prioridades.

 

Pareço um adulto falando, não?

 

E é só o que basta para a criança dentro de mim começar a não aceitar.

 

Ela começa a não aceitar que eu tenha que trabalhar e estudar. Começa a não aceitar que eu não consiga mais escrever um texto a cada dia.

 

Começa a pensar que, por mais que eu diga que começarei a escrever semanalmente, eu posso estar mentindo. E ela está certa em duvidar porque, por mais que eu queira, duvido que esteja certo.

 

Se posso prometer mas não posso garantir, então talvez seja melhor parar por aqui.

 

Como se eu fosse conseguir.

 

Continuar a escrever eu sei que vou. Uma das poucas certezas que tenho (pobre garoto ingênuo) é que o mundo não me engole de novo.

 

Mas também sei que não volto a publicar textos tão cedo.

 

O livro de poesias que agora deixo inacabado eu devo voltar e terminar. E talvez finalmente tenha tempo de continuar o romance que deixei encostado por tantos anos.

 

Mas esse é o adulto querendo me convencer de novo, não?

 

De qualquer forma, manter a Rua do Amendoim atualizada quase que diariamente pelos dois últimos anos foi uma grande satisfação. Foram doze livros (não que algum deles tenha QUALIDADE) em dois anos de um grande exercício de compreensão do mundo (essa merda complexa da porra) e de mim mesmo (essa merdinha complexa da porra).

 

Se aprendi alguma coisa? Muitas. E me esqueci de muitas outras também. Mas agora parece que eu preciso ir.

 

E um dia, quem sabe, talvez eu volte a ter bolas. Bolas para uma vez mais largar meu emprego remunerado e passar a viver do dinheiro que consegui juntar. Bolas para voltar a escrever diariamente sem me preocupar com quem ou com qual dinheiro vou beber amanhã.

 

Todas as bolas necessárias para viver.

 

Se o máximo que posso fazer é prometer, pois bem:

 

Eu prometo.

 

Termino citando aquele poeta arrogante que de vez em quando dá uma dentro:

 

 

"A vida teria menos graça se a gente não desse um jeito de rir dela,
mas nós também teríamos muito menos graça se a vida não desse um jeito de rir da gente."

- Iogue anônimo (que eu inventei)

 

 

Senhores, foi uma honra.

 

2006

Na torcida

De todas as coisas do mundo, uma das quais achei que não fosse precisar o tal do calor humano.

 

(Vamos pular a parte em que eu falo da minha ingenuidade)

 

- Vamos assistir o jogo aqui em casa?

- Ok.

 

Copa do mundo. Jogo do Brasil. Não ligo quando o time para o qual eu torço perde, mas, ainda assim, sou homem e brasileiro. Isso significa que partilho do pacote básico de conhecimento futebolístico que todos recebemos ao nascer. Em 1994, por exemplo, fizemos 2x0 na Rússia, 3x0 em Camarões, 1x1 contra a Suécia, 1x0 contra os Estados Unidos, 3x2 na Holanda e 0x0 contra a Itália (3x2 nos pênaltis).

 

Esse é o tipo do conhecimento que, apesar de não impressionar homem nenhum, ainda deixa muita mulher curiosa:

 

- E teve aquele gol do Carlos Alberto Torres em setent

- COMO DIABOS VOCÊS CONSEGUEM SE LEMBRAR DE JOGOS DE QUANDO NEM ERAM NASCIDOS?

 

São coisas que vêm – queiramos ou não – com o cromossomo Y.

 

Enfim. Esse tipo de comportamento se intensifica (ou no caso de uns apenas aflora) com os feromônios que a copa do mundo costuma liberar.

 

Só costuma.

 

Assisti o primeiro jogo do Brasil nesta copa, por exemplo, sóbrio e sozinho.

 

Pelo menos o primeiro tempo. O segundo tempo eu assisti do lado da minha tia moribunda que insistiu em passar mal durante a partida.

 

De um jeito ou de outro, não foi lá muito divertido.

 

O jogo de hoje, por outro lado, conseguiu ser tão ruim quanto. A diferença foi que eu assisti a mesma lama técnica acompanhado de outros homens.

 

Precisava disso.

 

Machos em um sofá, mulheres ao redor fazendo palpites desconexos. Cerveja nas mãos dos homens, fêmeas fofocando sobre os jogadores mais bonitos e comentando vez ou outra sobre o tricô e a lasanha.

 

Em resumo, eu havia sido convidado para assistir o jogo com uma daquelas famílias de propaganda de margarina.

 

- É obrigado a fazer substituição? – perguntaram.

 

- Eles tão amarrando o calção ou coçando o pinto? – ouvi antes de contribuir com os risos masculinos – Sei lá, ué... às vezes é difícil correr com esse troço no meio!

 

Felicidade.

 

Mais do que de calor humano, minha copa do mundo precisava de felicidade.

 

Vai Brasil!

 

2006

6/17/2006

Mão-de-ferro

Noite.

 

Frio.

 

Mesa de truco.

 

Um par de irmãos contra um par de namorados.

 

Meu par era uma garrafa e meus pensamentos brigavam com o horizonte.

 

- Sai daqui, você é muito ruim! – gritou a garota para o seu macho.

 

Foi aquilo que me tirou do transe.

 

Olhei.

 

- Quer jogar, Otávio?

- Não.

 

Não sou muito competitivo, mas meu orgulho faz com que eu me enoje de quem me torno quando disputo alguma coisa e QUERO vencer. Como isto costuma acontecer quando eu bebo e a garota em questão era tão ou mais orgulhosa do que eu, achei que seria bom evitar brigas por causa de um simples jogo.

 

Insistiram:

 

- Se você não jogar, vai acabar.

- Ok – respondi.

- Só um poqui

- Tá bom – aceitei quando percebi que insistiriam até eu concordar.

- Melhor de cinco quedas? – perguntaram.

- Melhor de cinco quedas – alguém respondeu.

 

Truco. Para jogar truco decentemente, você precisa saber fazer três coisas: montar o baralho, roubar e blefar.

 

Eu não sei roubar e muito menos consigo esconder minhas mentiras de forma satisfatória.

 

Dez a zero para os irmãos já na primeira mão.

 

Pelo menos eu sei fazer baralho como poucos.

 

Doze a dez nosso. Primeiro jogo.

 

Dois jogos a zero para nós. Uma queda.

 

Duas quedas para nós:

 

- Ninguém faz baralho como eu. Caiu na minha mão, já sabe!

 

A essa altura do campeonato, como se pode ver, eu já estava ficando insuportável:

 

- Otávio, você tá insuportável!

 

Minha parceira não era diferente:

 

- Pffffffff... – ela disse em um determinado momento antes de dar um tapa pouco carinhoso na cara de um dos nossos adversários – Truco!

- Vamos trocar a dupla? – perguntei. Em parte porque sabia que estávamos ficando chatos demais.

 

Em parte.

 

Duas quedas a uma.

 

Duas quedas a duas.

 

Duas quedas e um jogo a duas quedas para eles.

 

- Vamos trocar a dupla? – foi o que tive que ouvir. Agora era tarde demais para eu querer entregar o jogo, dar uma lição em minha parceira e continuar a me sentir superior.

 

Duas quedas e um jogo a duas quedas e um jogo.

 

Duas quedas, um jogo e dez pontos a duas quedas, um jogo e dez pontos.

 

E assim chegamos à última mão. Uma mão-de-ferro.

 

Agora as cartas seriam mostradas sem que as conhecêssemos, ou seja, cada um teria três cartas viradas para baixo e as escolheria na mais pura sorte.

 

Eu comecei. Não tinha nada. Meu adversário também não. Minha parceira puxou um sete de copas, a segunda melhor carta do jogo.

 

A possibilidade de perdermos era nula.

 

Perdemos.

 

Nosso outro adversário escolheu, também na sorte, um quatro de paus, a melhor carta do jogo.

 

Ele começou a jogar a outra rodada. Sua carta, assim como a minha que veio em seguida, era baixa. O outro irmão também não teve sorte. A garota venceu a segunda rodada.

 

Duas quedas, um jogo, dez pontos e uma rodada a duas quedas, um jogo, dez pontos e uma rodada.

 

Tudo seria decidido em quatro cartas que nós nem conhecíamos.

 

De um lado eles, os mocinhos, os humildes. Do outro nós, os chatos, os babacas.

 

Minha parceira, que iniciou a última rodada, não tinha nada. O irmão número um também não.

 

Saí com um dois. Cartinha razoável.

 

Suspense.

 

Três tamanhos de falos e o de um poder feminino a serem decididos com um único pedaço de papel.

 

- É um sete – eu disse.

- De ouros – emendou o dono da carta antes de virá-la e jogá-la para todos vermos.

 

Sete de ouros. A quarta carta mais alta do jogo.

 

- De paus – repliquei com a carta ainda no ar.

 

Sete de paus. Uma das cartas mais irrelevantes do jogo.

 

Era um sete.

 

De quê? Que o leitor sinta um pouco do suspense que sentimos enquanto a carta ainda estava no ar.

 

O sete era de paus.

 

Às vezes os babacas vencem. Quase sempre, na verdade.

 

Quando o babaca sou eu, pelo menos, é com estilo.

 

(Eu sei. Fico insuportável só de me lembrar dessa partida)

 

2006

O horror

Acordei cedo.

 

Acordei cedo e estava no ônibus.

 

Acordei cedo e estava no ônibus a caminho do trabalho.

 

Relaxa que piora.

 

Paramos num ponto e a professora começou a gritar:

 

(Eu também não sabia que ponto de ônibus tinha professora)

 

- Entra aí, gente! Espreme mais!

 

Alunos.

 

Adolescentes.

 

Por todos os lados começaram a surgir os tais adolescentes.

 

Adolescentes que estariam correndo e pulando se pudessem. Mesmo assim, apesar da lotação, aqueles eram adolescentes que estavam conversando, adolescentes rindo, adolescentes gritando e, acima de tudo, adolescentes EXISTINDO.

 

O horror.

 

O HORROR.

 

- ESPREME MAIS PRA CABER TODO MUNDO!

 

“Certo, e quando eu quiser descer do ônibus eu só preciso ter pensamentos felizes, né, sua vaca mal comida?”, pensei.

 

- ANDA QUE CABE MAIS, VAMOS, GENTE!

 

- Certo, e quando eu quiser descer do ônibus eu só preciso ter pensamentos felizes, né, sua vaca mal comida? – eu disse em voz alta.

 

O barulho era tanto que ninguém ouviu.

 

E foi assim, com meu ônibus transformado de uma hora para a outra numa excursão, que começou o meu dia.

 

Seria uma questão de tempo até que os garotos pensassem em cantar.

 

Regra geral da vida: não importa o quanto numa ocasião você queira peidar bem fedido; nesses casos nunca vai acontecer nada.

 

Seria uma questão de tempo até que eu pensasse em chorar.

 

2006